diz aí… em qual outro esporte o praticante manufatura seu instrumento de alegria?

nunca vi tenista construir sua raquete. no futebol, jogadores não escolhem as travas  das chuteiras…

no caso do surf, bem, pra começar, esporte não é bem a palavra que define o que significa o surf pra mim. mas isso é assunto para outro texto – não este, não aqui…

entrando para a sala de shape…

surfista há mais de 20 anos, hoje com 28, tive a experiência de shapear minha própria prancha. a realização de um sonho, e mais: para mim, um ritual de passagem dos mais lindos.

no meu caso, caiu no colo a oportunidade: um amigo, Felipe, que por amor ao mar e talento empreendedor, criou o Lar Mar [ vale o parênteses para explicar: o projeto nasceu contando histórias de pessoas que mudaram radicalmente de vida para correr atrás do sonho. e a história tomou corpo. nesse ano, com espaço físico: tem areia, árvore, loja que valoriza marcas independentes, bar, comidinhas e sala de shape. localizado na Rua João Moura, 613 ], então, de sopetão, ele me fez o convite: “topa shapear a primeira prancha do nosso projeto Shaper Room, com Neco Carbone?”

você só pode tá de brincadeira, né? shapear uma prancha? com o Neco?! 

não preciso dizer o óbvio!

ao que interessa.


lá estava eu, com o mestre, Neco Carbone, inside the shape room. OH GOD!

do lado de fora, a galera curtia. drinks, música – party mode, IT’S ON!. dentro, eu e Neco, separados pela parede de vidro que divide o mundo exterior do interior. no interior, aliás, ferramentas, várias, e partículas suspensas de poliuretano!

“olha, eu nunca, na minha vida, imaginei isso rolando. shapear no meio de uma…balada,” ressaltou Neco.

para mim, tava tudo valendo né.

“controla. concentra… segura a ansiedade…” – respira fundo… e vai.


“qual prancha você vai querer?,” pergunta Neco apontando os outlines disponíveis.

a fish modelo retrô! 

estava tudo decidido. até aparecer este outline –  uma fish mais esticada, com wing, rabeta swallow – o retrô com o moderno, em um design do australiano Mark Richards.

prazer, Mark Richards Twinfin (na foto abaixo).

também conhecida por ‘the magic 1980 twin-fin’ – ASSISTA AQUI.

MARK RICHARDS, EM AÇÃO COM SUA TWIN FIN.

“vai ser essa!,” Micaela Vênus, brinco, antecipando o nome da prancha.

“será que ela vai me ajudar a surfar igual o Mark Richards?,” penso alto, tirando sarro de mim mesma.   

sem mais enrolações. cá estamos, defronte ao bloco retângular, maciço e levinho de isopor.

escolher o tamanho, bater medidas, ver se a proporção frente ao design original é mantida. o meu modelo, tamanho 5’7”, é menor que o outline original, por isso, checar as proporções.

play: hora de ligar a plaina.

“plaina para desbastes e esculpir, trabalhar curvatura, fundo, distribuição de espessura e caimento de bordas,” objetifica Neco.

com plaina em mãos, ouço as instruções: “- segure-a firme, mantenha-a de lado, regule a abertura com uma das mãos.”

“beleza.”

o trato com a ferramenta começa desajeitado. estou tensa. a cabeça vai longe: “nossa, isso é uma responsa… me pergunto quantas pranchas são necessárias para pegar o manejo… já não parecia fácil antes, só que agora, parece mais difícil.

respiro, concentro, começo a descascar o bloco com a plaina elétrica. de relâmpago, uma metáfora: a história do shaper e da plaina, com a de um guitarrista e sua guitarra: o instrumento, extensão do braço. sem dissonância entre intelecto e  execução: pensa, executa. fluidez… falar é fácil, né… a partir daí, inicio um exercício de mentalização positiva.

 


até que nhhhéeeewww  alguns barulhos simplesmente ecoam errado. 

poucos minutos de plaina, já cometo a primeira cagada – raspei um pouco a mais a longarina, desnivelando o design de um jeito bem zoado. sempre atento, Neco chega, assume controle, e rapidamente conserta meu vacilo.

ainda bem que ele está aqui, penso, aliviada, ou Mark Richards me odiaria para sempre.

 


hora de usar o serrote para cortar o outline. nessa etapa, a prancha tem cara de prancha, mas o bloco ainda está retangular.

“essa é uma das partes mais difíceis,” avalia Neco. “mesmo para quem tem experiência, é fácil errar.” ele começa a fazer um dos lados, inclusive a rabeta, e me passa o bastão para que eu termine uma das bordas. 

até que chega uma hora, eu paro de pensar, me apego à sensação do momento.  “shapear é um estado de espírito,” já me sinto à vontade para dar aquela viajada.


terminado o corte com o serrote, eis o que temos: uma prancha bastante definida (dá uma olhada na foto acima).

“lâminas de surform, plainas manuais para rebaixar longarina, lixas variadas e telas abrasivas para o trabalho de finish,” antecipa Neco.

depois do serrote, as lixas! para deixar o shape no jeito e pronta para o laminador.

lixar me faz lembrar do que falou uma menina. ela não era surfista, mas experimentou lixar uma prancha, aqui mesmo, nessa sala de shape. ela comparou o barulho da lixa raspando no bloco com o barulho do mar. eu achei muito apropriado.

os shapers que me perdoem, todos. não estou muito para técnicas, mais feeling. eu diria que lixar é carícia de alma no bloco.

tudo pronto.

agora Micaela Vênus vai à laminação.


UMA PERGUNTA QUÂNTICA SOBRE DESIGN: ENERGIA IMPORTA? NECO RESPONDE


[alguns dias depois da sessão de shape, fiquei com uma dúvida na cabeça, e mandei, via whats, uma mensagem para o Neco. confira abaixo a transcrição da conversa]


[eu]: Neco, me conta, o quanto energia importa no design?

Neco Carbone [NC]: é tudo!

[NC]: tudo tem energia.

[NC]: imagine a energia de um produto feito com trabalho escravo… como as pranchas da China.

[NC]: too bad!

[NC]: mesmo as de máquina têm o contato na hora do finish, a sintonia fina. mas as feitas à mão tem mais.

[AI]: falta consciência para o surfista, será?

[NC]: muita gente nem imagina isso. pensam só em números, curvas, concaves. totalmente técnicos. equilíbrio no design é importantíssimo. mas energia é mais. por isso feras no design que trabalham com amor fazem pranchas mágicas.

[AI]: ah, é? tipo quais?

[NC]: Pat Rawson, Roger Hinds, Arakawa. e tem muitos por aí. falei dos que conheço. sei como eles amam o que fazem. admiro-os por conta disso. eles compartilham conhecimento. quando se compartilha, é porque não se pensa só em dinheiro. não veem os outros como concorrentes. não há competição. são humildes. gosto muito desses caras. com o Pat, tenho ligação muito forte. ele é sensitivo. se eu não estou bem, ele sente, e me liga.

[AI]: conexão, né…

[NC]: isso.


depois de tanta conexão… acho que é hora de shapear mais uma prancha.
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Tá afim de shapear sua prancha? Mais infos sobre o Projeto Shaper Room da LAR MAR AQUI. Mais sobre Neco Carbone AQUI.

[ Texto Alexandra Iarussi –  falando as coisas do meu jeito: tecnicidades me importam menos do que sensorialismos ]